Muse. E no caos estará a absolvição.

Muse é uma história de corpos em queda constante, livre apenas metaforicamente, porque essa queda é forçada, e no entanto parece a única opção possível. Falar de Muse é reportar a um conceito musical que é tudo menos pacífico. Muse é sinónimo de intensidade dramática, arrebatamento que nos deixa sem fôlego – e nos desprove de toda a sanidade mental que ainda possuíamos. Muse é o choque, eléctrico, que percorre o nosso corpo, até a tensão não ser mais suportável e o corpo sucumbir de cansaço. Mas Muse é também a luz que nos cega e nos atrai irresistivelmente, com força lunar, para o abismo onde espaço e tempo deixam de fazer sentido. Muse é uma globalidade, mas dentro dessa globalidade não existe lugar para a serenidade. Existe melancolia, tristeza, revolta, raiva e de novo angústia, desespero. Existe amor, desprovido de piroseiras e de floreados, intenso, dramático, estilizado. Porque para os Muse, a música parece ser um exercício de estilo, desequilibrado, exagerado até, mas partindo sempre da verdade. E é esse dramatismo que confere precisamente o realismo que falta a outras bandas quando se trata de musicar sentimentos. Porque o amor em Muse é sujo, cru, revoltante, mas intenso e belo e de novo cortante e capaz de levar à loucura.

Em Muse nada é o que parece. O mundo assiste a uma conspiração, quando não acontece cada um estar demasiado absorto na sua existência una e sensacionalmente complexa. O universo dos Muse é feito à base de contradições, de pólos opostos que num mesmo tomo se atraiem só para se poderem afastar novamente. O ódio só faz sentido porque existe o amor, e nessa dualidade não existe espaço para lugares idílicos. Outros que cantem a harmonia e a pacificação da alma. Muse é sobre tormento, auto-destruição, num caminho para a única felicidade possível. Paradoxal, mas verdadeiro, porque a vida não é pacífica, e aqueles que mais amamos são simultaneamente os que mais odiamos, precisamente porque não concebemos a vida sem eles.

Mas os Muse deixaram espaço para interpretações paralelas. E há em média uma música por álbum que contraria a mainstream. Que traz consigo algo de pacificador, de redentor, como se por um breve momento fosse alcançado o equilíbrio, para logo de seguida cair de novo, em velocidade vertiginosa. Se algum dia o Mathew Bellamy encontrar o equilíbrio e a harmonia de forma permanente, os Muse acabam. Porque os Muse são o apocalipse do sentimento, a luta interior para esquecer aquilo que se quer porque só nos destrói, mas que inevitavelmente se tem de ter, porque se não a vida nunca terá sentido. Assim uma canção dos Muse é a história de se querer deseperadamente e precisamente aquilo que é pior para nós. Mas só percebemos isso tarde demais. Existe, no entanto, em presença latente a esperança de que com o caos venha a absolvição, de que depois de se esventrarem os sentimentos e nos banharmos em sangue e dor, chegue essa luz, essa lua de presença eterna e pacificadora. Esse amor correspondido.

Cátia Monteiro

2004-02-03

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PS: O post inaugural (o oficial) tinha de ser sobre os Muse. Porque não podia ser sobre outra coisa.

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