O Memento da minha vida

Ao rever o Memento de Cristopher Nolan, ou melhor, na hora que se segue, procuro na minha memória recordar-me do porquê de este filme em particular me ter marcado de forma tão profunda aquando do primeiro visionamento. Talvez porque este filme é de facto competente a todos os níveis – uma interpretação genial, nomeadamente na parte que toca a Guy Pearce, uma narrativa sumarenta e algo densa, uma estrutura complexa e descontertante. Este é, de resto, o expoente na até agora curta carreira de Cristopher Nolan, que se deseja cheia de bons momentos ou mementos

Mas o que me leva a revisitar o filme enquanto o comboio segue até ao meu destino não é um ou outro pormenor, algum aspecto que me tenha perturbado ou fascinado. De facto, a minha preocupação, algo consciente, é a de, num trajecto simultâneo entre um passado algo distante e um outro acabado de se passar, comparar e encontrar as diferenças. Mas sobretudo o porquê dessas diferenças. Porque é que aquele que é o meu filme favorito, e que quando vi no cinema há uns anos atrás, não consegue repetir o seu impacto duradouro e deveras marcante… Será que entretanto a fasquia se tornou demasiado alta? Será que o Memento não é um filme que funcione quando visto mais do que uma vez? Não, e definitivamente, não.

Memento é um filme. Memento é mais do que um filme. Muito mais. Para mim, Memento significou o desvirginar para o campo cinematográfico mais alternativo. Foi de resto o primeiro filme que vi que estava em exibição numa única sala lisboeta e não em oito ou nove em simultâneo. Por isso, é um ponto de viragem. O ponto de viragem. Recuando até esse dia, posso dizer que foi o primeiro filme que fui ver com base numa crítica de jornal; e porque gostava do actor principal, esse Guy. Ao procurar o cinema Mundial (a única divisão visionável da Lusomundo em dias que correm), ao entrar na sala, sentia que estava prestes a penetrar numa outra dimensão. E uma vez transposto esse portal não há fuga nem retorno possíveis. Assim, Memento é de facto um momento e uma memória, consolidados num só, funcionando como referência para uma mudança profunda no meu errático percurso de gostos e costumes. E é exactamente por isso que agora, perante a desejada segunda vez, vejo-me incapaz de tornar a sentir o que senti então, com a mesma intensidade e durabilidade. Não ponho, sequer por décimas de segundo, em causa o filme, nem o que me leva a tê-lo no topo do pódio. O lugar pertence-lhe, sem dúvida, agora e sempre, até que outro o tome, inesperada e inadvertidamente. Revejo nele as qualidades que lembrava terem-me deslumbrado nessa época. Mas não posso sentir. Posso sentir outra coisa, mas não aquilo. Aquilo era o efervescer da mudança, o crescimento brutal interior, capaz de me introduzir numa nova dimensão. Aquilo era o perceber que finalmente tinha encontrado aquilo que sem saber procurava. O que eu gostava, mas que ainda não havia provado. E aquele era o melhor gelado de morango com pedaços que já tinha provado. E fresco. E cremoso. Com muitas calorias, capazes de me transmitir uma sensação de saciedade – mental, diga-se, por analogia. Por isso não posso repetir esse momento. Porque de todas as vezes que voltar a pedir um cone com a bola de morango, não será o mesmo gelado, nem eu serei a mesma, e o momento, esse, ficou gravado na memória, quem sabe por quanto tempo e com que fiabilidade.

E por breves momentos desejo sofrer da mesma condição que a personagem interpretada por Guy Pearce, e não ser capaz de preservar a minha memória de curto prazo. E que o meu acidente tenha ocorrido precisamente antes de entrar naquela sala do Mundial. Só para poder repetir esse momento, poder absorver essa atmosfera, deixar a novidade apoderar-se de mim, não como se fosse a primeira vez que provava aquele gelado de morango em concreto, mas de facto a primeira em que o gelado cremoso tocava nos meus lábios. Para poder prolongar o entusiasmo com que contava a minha experiência aos amigos mais próximos e mais pacientes, para poder sentir-me agradavelmente diferente, como quando se experiencia algo de único e especial. Tal como ele procurava sentir de novo o que era acordar e sentir no outro lado da cama o rasto ainda quente deixado pelo corpo da sua amada, também eu procuro fabricar as condições que me permitam reviver um momento que não pode voltar a ser o que foi.

E de qualquer forma, como poderia depois revisitar esse tempo, reviver mentalmente – embora com perda de nitidez, como um beijo distante, de sabor já algo incerto – essa unicidade temporal da minha vida? Prefiro preservar a minha memória. Falível como possa ser, distorcida, mas ainda assim capaz de me levar a questionar o que sinto hoje ao olhar o passado, e perceber que se calhar, embora de maneira diferente, o Memento continua a marcar-me e a dar-me o que pensar… Por dias… E anos.

2004-01-29

Cátia Monteiro

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