E Por Fim A Violência Justifica-se

Amor e ódio tocam-se. Por vezes entrelaçam-se de tal forma que se perde a noção de onde começa um e já terminou o outro. Mas mais do que amor esta é uma história de possessão. E da inevitável escapatória a essa possessão. É uma história que assenta em algo que define o ser humano enquanto tal – o livre arbítrio. E sim: é fantástica no sentido de que nunca se poderia ter passado assim, mas o que é que isso importa?

Kill Bill – primeiro e segundo tomos – remete para a manga. Tem referências ao Western Spaghetti. Funde os horizontes americano e japonês num multicolorido de sequências de luta desconcertantes e simultaneamente entusiasmantes. Enquanto a personagem de Uma Thurman decepa membros aos seus adversários, há esse jogo morte-vida brilhantemente encenado. É o sangue que jorra por oposição aos membros que caiem no chão. É a energia interior de Uma face ao automatismo de grande parte dos seus adversários. Tarantino abusou do sal. Mas Kill Bill segue uma estrutura e serve-se de um conceito que o justificam. O que é o mesmo que dizer que aqui salgado é q.b.

Se é verdade que Uma parece ter uma sede de vingança inesgotável e que nem a morte latente consegue apaziguar, também não deixa de o ser relativamente à intensidade do seu sofrimento, pela perda de tudo e pela impossibilidade de o recuperar. E apesar do crescente número de cadáveres que vai fazendo jazer pelo caminho, permanece a personagem mais humana que conseguimos encontrar ao longo do filme. Quase como se as motivações que a impelem nos impedissem de a encarar como uma verdadeira assassina. Mas Uma também não é vítima. Uma mulher assim nunca poderia ser uma vítima. E os seus inimigos sabem-no e confirmam-no com a sua própria morte.

A personagem de Uma Thurman em Kill Bill e a de Nicole Kidman em Dogville conhecem-se. Pelo menos uma vez no espaço e no tempo cruzaram-se e reconheceram-se uma na outra. Para além da circunstância óbvia de ambas fugirem do mundo do crime e de pessoas que as amam num sentido que é mais verdadeiramente obssessivo do que propriamente amoroso, são sobretudo as suas personalidades que se tocam. Tanto Uma como outra conhecem humilhações, torturas e sofrimento inimagináveis de suportar pelo comum dos mortais. Ambas começam um percurso dominadas por um jugo que posteriormente desafiam até ao limite das suas forças. Mas enquanto Dogville é sobretudo angústia, Kill Bill é pautado pela acção. Acção que não impede alguma reflexão, mas que anestesia os sentidos e que remete para uma realidade paralela em que o improvável é permanente e o impossível recorrente. Embora Lars Von Trier e Quentin Tarantino pressuponham objectivos diferentes no que toca à reacção provocada pelas suas películas, e usem de meios completamente diferentes para lá chegar, não deixa de ser possível ver aqui dois universos distintos que se tocam e se explicam mutuamente a um nível conceptual.

Kill Bill é estruturado de forma a que a previsibilidade tome em si alguma imprevisibilidade. O que simplificado quer dizer que precisamente no momento em que estamos convencidos de que we’ve got it all figured out, surge algo na tela que nos deixa perplexos, quase atónitos, pela originalidade e pela improbabilidade latentes. Sabemos desde o início o que vai acontecer. O que desconhecemos é a forma como vai acontecer. E é aí que Tarantino desbrava campo, quer ao nível da estrutura da narrativa, recorrendo a analepses e prolepses, quer no que toca ao desenrolar da acção propriamente dita, em que uma visão mais corrente é pontuada pelo inédito.

O que já não é inédita é a forma como a violência aqui deixa de ser um meio para se transformar num fim. É uma constante ao longo de todo o filme, e é sobretudo física, estando a vertente psicológica mais mascarada. É uma violência exagerada, irreal, e absurdamente estética. Violência que se sucede a um ritmo de tal forma acelerado que não permite ao espectador uma consciencialização absoluta dos seus efeitos. Mas é uma opção que aqui funciona. Porque mais do que uma violência comercial fabricada para grandes sucessos de blockbuster facilmente (e rapidamente) assimiláveis (e esquecidos) e mais do que uma violência de concretização de novas técnicas de efeitos especiais, é uma violência que serve um propósito. Um princípio conceptual que a eleva a um nível quase místico, porque não pretende ser verosímil, mas sobretudo criar um estatuto singular. Na fronteira entre o entretenimento e aquilo que é qualquer coisa que não sabemos bem o que é, mas que não chega a ser nem racional nem justificável (como se a violência pudesse ser qualquer uma delas). Deve ser também aqui que Tarantino afirma a sua diferença. Uma diferença violenta? Um filme diferentemente violento.

Cátia Monteiro

2004-04-25

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