Nostalgia

Havia uma altura em que caminhar para a escola era motivo de melancolia. Na expectativa de mais um dia sofrido até à camioneta das quatro e meia da tarde para o regresso a casa, aos desenhos animados do – na altura – Canal 2 da RTP e às brincadeiras com a vizinha de trás, só uma canção embalava o ego em sonhos acordados bem cedo na manhã. Chico Buarque de Hollanda, que nesses tempos convivia de perto com outros discos e cassetes de Caetano Veloso ou Maria Bethânia, na colecção lá de casa, era escape para sonhos de criança. Uma história cantada a duas vozes, a da criança e a materna, num laço invisível de confiança cega. A história de…

“João e Maria

Agora eu era o herói
E o meu cavalo só falava inglês
A noiva do cowboy
Era você
Além das outras três
Eu enfrentava os batalhões
Os alemães e seus canhões
Guardava o meu bodoque
E ensaiava um rock
Para as matinês

Agora eu era o rei
Era um bedel e era também juiz
E pela minha lei
A gente era obrigado a ser feliz
E você era a princesa
Que eu fiz coroar
E era tão linda de se admirar
Que andava nua pelo meu país

Não, não fuja não

Finja que agora eu era o seu brinquedo
Eu era o seu pião
O seu bicho preferido
Vem, me dê a mão
A gente agora já não tinha medo
No tempo da maldade
Acho que a gente nem era nascido

Agora era fatal
Que o faz-de-conta terminasse assim
Pra lá desse quintal
Era uma noite que não tem mais fim
Pois você sumiu no meu mundo
Sem me avisar
E agora eu era um louco a perguntar
O que é que a vida vai fazer de mim”

E como é que essa angústia se acalmava com estes versos de final dramático permanece questão insolúvel. A criança ficou por lá, na sua inocência. A lembrança do que era esse sentir – não o sentimento em si, mas uma fotocópia fiel – mantém-se vívida. E quando um certo Quinteto que pede emprestado o apelido ao realizador francês Jacques Tati faz reavivar essa memória, apetece de novo fazer esse caminho. Agora sem a angústia, apenas uma leve nostalgia. Porque se no presente (enquanto vivido) é a dor que parece deixar marcas mais profundas, do passado é esse pequeno e feliz quase-nada que uma nova canção ou agradável conversa de café faz rememorar.

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