A aposta de Ozon

Swimming Pool parece ter sido a forma encontrada por François Ozon para demonstrar que é capaz de seguir aquela linha francesa do despudor sexual numa trama vazia de significações profundas. (Digo aquela porque há outras, apesar do estereótipo). Não tendo examinado a fundo a filmografia do realizador francês, três outros filmes servem de âncora a esta análise: 8 Femmes, Le Temps Qui Reste e Sous Le Sable. Qualquer um destes apresenta mais conteúdo a ser descodificado, sob a forma de metáfora, de introspecção, de outputs para o espectador que vão para além do estímulo visual providenciado por Swimming Pool, despido que está – literalmente – de complexidade interpretativa.

Visualize-se o cenário, já que “visualizar” é o verbo chave neste filme: a piscina do título numa vivenda em território francês, propriedade de um editor de livros inglês, que a empresta a uma escritora de policiais que dá pelo nome de Sarah Morton. No retiro apelativo à inspiração a escritora é provocada pela ocupação do seu espaço vital por Julie, filha ilegítima do editor, uma jovem loura de curvas apetecíveis… hmm, uma imagem vale mais do que estas palavras; seja.


A relação que se vai estabelecer entre estas duas mulheres atravessa várias fases, desde a violência da rejeição inicial à força de uma ligação obsessiva de contornos pouco definidos, talvez mesmo plurais – com espaço para o registo passional não consumado, para a projecção da relação mãe/filha e da ligação escritor/objecto da escrita. O contraste inicial das suas personalidades vai-se esbatendo à medida que as mulheres se aproximam, sempre em oposição aos homens que entram e saem da casa da piscina.

Atenção: spoilers
Um dos momentos-chave para compreender este filme tem lugar quando a jovem Julie acusa Sarah de ser uma inglesa frustrada que escreve sobre “dirty things”, mas que não se atreve a pô-las em prática (como ela). E de facto é isso mesmo: 90% da acção sai da imaginação hiperactiva de uma escritora de policiais cansada de escrever por encomenda. A confirmação surge num twist final, único momento intelectualmente estimulante do filme, em que percebemos que Julie era afinal uma representação distorcida (e melhorada em todos os aspectos físicos) de Julia, filha autêntica (e legítima) do editor – posta em prática por Sarah e traduzida no seu novo romance.

Que fica de Swimming Pool? Um twist interessante, mas insuficiente para equilibrar o filme, e uma série de momentos sexualmente estimulantes. Se tivesse dado à minha libido a oportunidade de motivar a escrita deste texto, Swimming Pool seria um filme a revisitar – ainda que por partes.

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