Todos de igual, todos iguais?

De tempos a tempos ouço alguém referir as fardas como instrumentos de atenuamento dos efeitos de diferenciação operados pela estratificação social e económica sobre as pessoas. Mas será que, só porque as criancinhas andam todas vestidas com o mesmo modelo de bibe, esse detalhe é suficiente para evitar a discriminação?

Discriminar deriva do latim discriminare, que se pode traduzir por “distinguir entre”. É óbvio que o tipo de discriminação social a que os defensores da farda se referem contém já uma conotação mais avançada, que passaria pela distinção entre pessoas com base em classes e categorias, independentemente do seu mérito individual (conferir wikipedia). Aqui, vou ter em conta ambas as determinações.

Um dos princípios base de funcionamento da mente humana assenta sobre a operação “distinguir entre”. Necessitamos de categorias e de modelos para nos situarmos face a um tempo e a um contexto; para gerirmos os nossos níveis de confiança (que não podem ser indiscriminados, good intentions are shot down in less than five minutes); para que possamos prever (with a reasonable accuracy and an acceptable margin of error) as acções daqueles que nos rodeiam, e programar a nossa acção em concordância com isso. And so on. (Perdoem o modo bilingue. A escriba não conhece palavras suficientes numa das duas línguas para se exprimir)

Sejamos razoáveis. A roupa – e neste caso um modelo de vestuário formatado e generalizado a todos (ou quase) dentro de um mesmo contexto – funciona apenas como um dos motes possíveis à diferenciação para que a mente humana se encontra predisposta. Numa abordagem absolutamente superficial e célere, fulano X talvez seja capaz de achar que fulana Y parece igual às outras porque veste de igual. Mas dêem-lhe mais do que 5 segundos…

O Professor Higgins dar-nos-ia já uma pista com sustentação suficiente para contrariar a tese da farda (para abreviar, fica TDF daqui em diante). A qualidade do inglês falado era, na sua opinião, instrumento suficiente para se conhecer o pedigree social e o tipo de educação que uma pessoa recebera (indo ainda mais longe e descobrindo-lhes a origem geográfica, de acordo com o accent). Ficção baseada em factos reais.

Ora vejamos. O que observo quando interajo com alguém? O modo de falar, a linguagem utilizada (verbal e não verbal), a postura, as temáticas de conversação e respectivos posicionamentos, a cultura e respectiva orientação, etc. etc. Isto depois de ter analisado a roupa (estilo e consonância dentro desse estilo), os contornos do corpo, a cor do cabelo, o tom e a textura da pele, o formato dos olhos e a sua tonalidade, et caetera. E quando pratico estas observações, não o faço de um modo neutral. Concretizo-as numa lógica dupla, de identificação e de distinção.

Identificar-me com algo em alguém não implica que goste imediatamente dessa pessoa, como distinguir-me face a ela não deriva necessariamente numa rejeição. Mas uma acumulação gradual de “iguais” e “diferentes” pode resultar numa agregação de pessoas em diferentes grupos, já que esse é o modelo base de formação de uma cultura. Sabemos quem somos por oposição ao que não somos, tal como sabemos com quem queremos estar por uma soma de características que nos agradam e por oposição a outras que nos repugnam (ou que simplesmente não nos apelam).

Não somos imediamente inimigos dos outros porque escolhemos estar com estes. Mas sabemos que não podemos estar com todos; é uma promiscuidade que nos desagrada.

Mas de volta à TDF. Não preciso de recordar os meus tempos de colégio para mostrar que a farda não é o que basta para evitar a diferenciação entre classes. Parece-me já suficientemente clara a preponderância de outros elementos indiciadores nessa função.

Para que serve então a farda? Ou melhor, o que serve ela? Sherlock levanta-se e responde: “a lógica corporativa, claro. Bolas, Watson, já acertavas uma” – o Watson em mim indigna-se – e segue “a farda funciona como elemento agregador dentro de uma instituição ou empresa, não porque elimine as diferenças entre as personalidades individuais, mas porque coloca todos sob o mesmo manto, que é como quem diz, sob as mesmas regras, o mesmo modus operandi, o mesmo chefe. Ou, do ponto de vista do espectador menos atento, é o que confere homogeneidade e funciona como agregador de identidade, particularmente útil numa empresa ou organização que quer projectar uma imagem de coerência, unidade e sem dissonâncias.”

Sim, mas por muito ingénuos (ou watsonianos) que nos tomem, todos conhecem o ditado das “aparências _ _ _ _ _ _”.

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3 thoughts on “Todos de igual, todos iguais?

  1. o traje académico, que é enunciado dentro da lógica que referi no post (como algo que ocultaria as diferenças de classe, etc.), serve hoje de forma de diferenciação entre um grupo de pessoas dentro da universidade que resolve dedicar-se à manutenção de certas tradições académicas e os restantes alunos que já não se enquadram nesses princípios.

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