Não concordo

“Ainda que não tivessemos perante nós a realidade das experiências Nazi e Comunista, temos essas obras de ficção por Orwell, Huxley e Koestler, que nos avisam daquilo em que o mundo pode inevitavelmente tornar-se quando a humanidade se rende à ciência. Ver os seres humanos como objectos não é vê-los como eles são, apagando a aparência através da qual se relacionam uns com os outros como pessoas. É criar uma nova espécie de criatura, um ser humano despersonalizado, em que sujeito e objecto se distanciam, o primeiro em direcção a um mundo de sonhos desamparados, o segundo para a destruição. Num sentido muito concreto, não pode, portanto, existir uma ciência que explore o que somos uns para os outros, quando respondemos uns aos outros como pessoas.”

in Guia de Filosofia para Pessoas Inteligentes by Roger Scruton

Neste livro Roger Scruton posiciona filosofia e ciência em posições antagónicas: a filosofia como a consolação humana para o bisturi implacável de uma ciência insensível. É precisamente este tipo de apologia ao divórcio entre as diferentes disciplinas do conhecimento que até poderia ser compreensível aquando da sua génese, por questões de afirmação e clarificação epistemológica, mas que por esta altura já deveria ter sido ultrapassada. António Damásio (por exemplo) já o fez. No seu livro Ao Encontro de Espinosa tece uma ligação entre filosofia e ciência onde cabem tanto a ressonância magnética funcional, que analisa a activação dos componentes cerebrais a diferentes estímulos, como os porquê – tipicamente filosóficos – de as coisas serem como são. A consciência vista pelo eu e pelo outro.

A ética – tema filosófico por excelência – não deve, nem pode, ser dissociada da ciência. E se há, na ciência, uma tendência para objectificar o ser humano, ela surge precisamente pela mão de quem julga ser imperativo dissociar.

Não sendo filósofa nem cientista e apenas interessada na matéria do conhecimento, pouco me importam os argumentos com que os diferentes protagonistas destes campos esgrimem entre si qual tem mais autoridade enquanto método de conhecer. Interessa-me sim verificar se podemos obter mais do que a soma das partes quando combinarmos os resultados brilhantes de cada uma das tentativas de alcançar a verdade.

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